Dependência de Jogo entre os Jovens em Portugal: Dados, Sinais e Prevenção

Jovem sentado com telemovel na mao em ambiente domestico com expressao pensativa

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Os Jovens e o Jogo Online em Portugal

Escrevo sobre apostas de futebol há dez anos e há um tema que nunca me deixa confortável: o jogo entre os jovens. Não por falta de dados – há dados de sobra. Mas porque os números representam pessoas no início das suas vidas, a tomar decisões com consequências que muitas vezes não conseguem antecipar. E porque, enquanto analista num setor que depende da participação de adultos informados, tenho a responsabilidade de falar sobre os riscos com a mesma seriedade com que falo sobre odds e mercados.

Os dados do SRIJ mostram que 77% dos jogadores registados em plataformas licenciadas têm menos de 45 anos, com 34,9% na faixa dos 18 aos 24 anos. Estes são os números do mercado regulado – onde a verificação de idade existe e funciona. No mercado ilegal, onde 43% dos apostadores entre 18 e 34 anos jogam, o acesso por menores é uma possibilidade real que nenhum mecanismo de proteção impede.

Este artigo aborda a dependência de jogo especificamente entre os jovens – os dados disponíveis, os sinais a que estar atento, e as estratégias de prevenção que funcionam. Não é um artigo alarmista. É um artigo factual sobre um problema real que merece atenção.

O Que Dizem os Estudos Académicos

O estudo mais completo realizado em Portugal sobre dependência de jogo entre jovens vem da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Com uma amostra de 1 123 estudantes, revelou que 3,1% apresentavam critérios de dependência de jogo e 16,6% sinais de probabilidade acrescida de jogo patológico. Quase 20% dos estudantes – um em cada cinco – mostravam algum nível de risco.

Mário Veloso, psicólogo especialista em dependências, contextualiza estes números ao explicar que com o advento das aplicações basta uma ligação à internet para jogar, e que no caso de jogadores patológicos se fala de controlo de impulsividade e até de compulsividade. A acessibilidade é o catalisador: o jogo online removeu todas as barreiras físicas que antes funcionavam como travão natural – já não é preciso sair de casa, deslocar-se a um casino ou apresentar identificação pessoalmente.

O perfil do jovem em risco, segundo a literatura especializada, combina vários fatores: exposição precoce ao jogo (através de videojogos com elementos de azar, loot boxes), influência de pares que apostam, presença ativa nas redes sociais onde a promoção de apostas é constante, e uma relação com o dinheiro que ainda está em formação. Nenhum destes fatores é, por si só, determinante – mas a combinação de vários cria uma vulnerabilidade que não existe na mesma medida em faixas etárias mais velhas.

Há um dado que não é do estudo académico mas que é observável na prática: a normalização do jogo no discurso juvenil. Apostar deixou de ser uma atividade marginal ou exclusiva de adultos e passou a ser tema de conversa comum entre jovens. Códigos promocionais circulam em grupos de WhatsApp, resultados de apostas são partilhados nas redes sociais, e a fronteira entre entretenimento e risco financeiro diluiu-se a um ponto que merece preocupação.

Sinais de Alerta em Jovens Apostadores

O número de novos registos em plataformas licenciadas caiu 22,7% em termos homólogos no terceiro trimestre de 2025, com 208 500 novos registos. A queda pode indicar saturação do mercado regulado – mas pode também indicar migração para operadores ilegais, onde os novos registos não são contabilizados. Para os jovens, que são mais permeáveis à promoção de influenciadores e menos sensíveis ao enquadramento legal, a segunda hipótese é preocupante.

Os sinais de alerta que familiares e educadores devem conhecer distribuem-se por três categorias: comportamentais, financeiros e emocionais. Nenhum sinal isolado é conclusivo, mas a presença de vários em simultâneo justifica atenção e, idealmente, uma conversa aberta.

Sinais comportamentais: aumento do tempo passado em apps de apostas ou sites de jogo; verificação compulsiva de resultados desportivos; desinteresse por atividades que antes eram prioritárias (estudos, desporto, convívio social); secretismo sobre a utilização do telemóvel; e alteração dos padrões de sono (apostar em jogos noturnos de outras fusos horários).

Sinais financeiros: pedidos de dinheiro frequentes sem justificação clara; venda de pertences; descoberto bancário em contas recém-abertas; uso do dinheiro destinado a despesas específicas (alimentação, transportes, material escolar) para outros fins; e, nos casos mais graves, empréstimos a amigos ou familiares com promessa de devolução rápida.

Sinais emocionais: oscilações de humor que acompanham resultados desportivos; irritabilidade quando não consegue aceder ao telemóvel ou ao computador; ansiedade antes e durante eventos desportivos; e, frequentemente, minimização do tempo e dinheiro gastos em apostas quando confrontado diretamente.

Estratégias de Prevenção e Papel da Família

Pedro Hubert, diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, descreveu a missão da sua instituição como informar, avaliar, aconselhar e potencialmente encaminhar para acompanhamento profissional. A prevenção, contudo, começa antes de qualquer encaminhamento – começa em casa e na escola.

A primeira estratégia de prevenção é a literacia financeira. Jovens que compreendem o valor do dinheiro, que sabem como funciona um orçamento e que entendem o conceito de probabilidade estão melhor equipados para avaliar o risco real das apostas. Ensinar que a margem do operador garante que, no agregado, os apostadores perdem dinheiro não é desencorajar o jogo – é fornecer a informação necessária para tomar decisões informadas.

A segunda é a comunicação aberta. Falar sobre apostas em casa, sem tabu mas com honestidade, cria um espaço onde o jovem pode partilhar dúvidas ou preocupações sem medo de julgamento. A proibição absoluta tende a gerar o efeito contrário: o jovem aposta às escondidas, sem supervisão e sem acesso a informação sobre riscos.

A terceira é a modelação de comportamento. Se os adultos da casa apostam, a forma como o fazem ensina mais do que qualquer conversa. Apostar com limites definidos, não perseguir perdas, e tratar o jogo como entretenimento (não como fonte de rendimento) são comportamentos que os jovens observam e replicam. A incoerência entre o discurso (“o jogo é perigoso”) e a prática (apostar sem controlo) anula qualquer mensagem preventiva.

A quarta estratégia é tecnológica: utilizar os controlos parentais disponíveis nos dispositivos para monitorizar o acesso a sites e apps de apostas. No iOS e no Android, existem funcionalidades que permitem bloquear apps específicas, limitar o tempo de ecrã por categoria e receber alertas de atividade. Estas ferramentas não substituem a comunicação, mas complementam-na – especialmente nos casos em que a comunicação é difícil ou insuficiente.

Se identificares sinais de alerta num jovem, o passo mais importante é não reagir com punição mas com diálogo. Perguntar, ouvir, compreender o contexto e, se necessário, procurar apoio profissional através da Linha 1414 ou do Instituto de Apoio ao Jogador. A dependência de jogo é uma condição tratável – e quanto mais cedo for identificada, mais eficaz é a intervenção. Os recursos de jogo responsável em Portugal existem precisamente para estas situações.

Perguntas Frequentes

A partir de que idade se pode apostar online em Portugal?

A idade mínima legal para apostar online em Portugal é 18 anos. Todos os operadores licenciados pelo SRIJ são obrigados a verificar a idade dos utilizadores durante o registo, através de documentos de identificação. Os operadores ilegais, por contraste, frequentemente não fazem qualquer verificação de idade.

Como posso prevenir a dependência de jogo num jovem?

As estratégias mais eficazes combinam literacia financeira (explicar como funcionam as probabilidades e a margem), comunicação aberta (falar sobre apostas sem tabu), modelação de comportamento (dar o exemplo com apostas responsáveis) e ferramentas tecnológicas (controlos parentais para monitorizar o acesso). Se surgirem sinais de alerta, contactar a Linha 1414 ou o Instituto de Apoio ao Jogador para orientação profissional.

Criado pela redação de «FutAposta».